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Comissão, aluguel de cadeira ou misto: como cada modelo muda o dia a dia do salão

Não existe comissão certa. Existe quem compra o material, quem recebe da cliente e quando repassa. Os três modelos lado a lado e o acordo de uma página.

"Se o profissional paga 50% ele torna-se sócio porém quem paga todas as despesas é o salão, ou seja prejuízo." Uma dona de salão escreveu isso num comentário do YouTube em 2023. No mesmo vídeo, um ano antes, uma profissional tinha escrito o contrário: "Deveria pagar no mínimo 50% pq os donos de salão não assinam mais carteira, nem pagam décimo nem férias nem passagens."

As duas têm razão, e é por isso que a briga não acaba. A dona olha pro aluguel, a tintura e a maquininha e vê metade indo embora. A profissional olha pra carteira sem assinar e vê metade ficando. O número é o mesmo; cada uma tá contando uma coisa diferente.

O número não existe. O modelo, sim

"Queria saber a média de porcentagem paga para profissional na área de sobrancelhas e maquiagem e cílios, dentro de um salão", perguntou uma profissional em 2021, a pergunta mais curtida do vídeo mais comentado sobre o assunto. A resposta, em quatro anos de comentários, foi um intervalo: "aqui é 30% pra manicure e 40% pra nail design, o salão dando o material"; "pagam 65% com o produto do profissional e manicure ganha 80%"; "se a profissional tiver com o seu material é 70% da profissional e 30% do espaço".

De 30% a 80%, e o que muda é sempre quem leva o material. Ninguém escreveu "a comissão certa é X", porque ela não existe. Se você tem duas manicures e não sabe quanto cobrar pelo espaço, a culpa não é sua: ninguém te deu as perguntas que vêm antes do percentual. Elas tão nos comentários: "ele paga diretamente ao salão ou cada profissional tem sua maquininha? [...] o valor é repassado semanalmente ou mensalmente?" (2023). Quem compra o material. Quem agenda. Quem recebe da cliente. Quando repassa. Quem paga a maquininha. As respostas definem o modelo.

Os três modelos, na prática

Comissão. O salão é o dono da cliente e do caixa: ela marca com o salão, paga o salão, e no fim da semana ou do mês o salão repassa a porcentagem. Material, cadeira e maquininha são do salão, e o mês fraco também.

Aluguel de cadeira. A profissional paga um fixo pelo espaço, por semana ou por mês, e o resto é dela: a cliente marca com ela, paga ela, o material e a maquininha são dela. O salão vira o dono das paredes, e a cadeira vazia paga aluguel do mesmo jeito.

Misto. Fixo menor pelo espaço mais uma porcentagem menor, ou porcentagem com o material por conta da profissional (o "65% com o produto do profissional"). O risco fica dividido, e por isso é o que mais dá briga quando não tá escrito: cada lado lembra da metade que favorece.

Lado a lado

comissão aluguel de cadeira misto
quem compra o material salão profissional combinado por item
quem agenda a cliente salão (um número, uma agenda) profissional (a agenda dela) os dois, e aqui mora o conflito
quem recebe da cliente salão profissional salão, na maioria
quando repassa semanal ou mensal, do salão pra ela não repassa; ela paga o fixo ao salão fixo numa data, porcentagem noutra
quem paga a taxa da maquininha salão profissional quem passou o cartão
cliente que fura prejuízo do salão prejuízo da profissional de quem agendou
lembrete, confirmação e sinal salão profissional quem agendou

A última linha ninguém põe na conversa, e é ela que decide o dia a dia. Quem agenda manda o lembrete, cobra o sinal, leva o bolo e procura quem ocupe o horário. Na comissão, isso é seu, pra cada cadeira. "Vou fazer aluguel na minha, estou tendo muita dor de cabeça com horários etc...", escreveu uma dona em 2025. Ela trocou de modelo por causa da agenda.

A conta num corte de R$ 30

Um dono de barbearia escreveu em 2024: "comissão de 50% em um corte de 30 reais. Minha agenda tá sempre na lotação máxima... sem equipe não consigo crescer mais." Serve pra salão de cabelo em cidade onde o corte custa isso. Troca pelo seu.

Na comissão de 50%, cada corte vira R$ 15 pro salão, e desses R$ 15 saem tintura, luz e maquininha. Com 6 cortes por dia, 22 dias, são 132 cortes: R$ 1.980 pra ela, R$ 1.980 pro salão antes dos custos.

No aluguel, a pergunta é quantos cortes ela faz só pra pagar a cadeira. Pega o valor que você cobraria pelo espaço e divide por R$ 30. Se for R$ 600 por mês (número inventado só pra conta andar), são 20 cortes, e do 21º em diante o corte inteiro é dela. Nos mesmos 132 cortes, ela leva R$ 3.360 e o salão R$ 600, sem gastar material.

Parece que o aluguel é ruim pra dona. Só que nele ela não comprou tintura, não pagou maquininha e não ficou com o horário vazio quando a cliente furou. Cada modelo tem um mês em que é o melhor. A decisão é sobre quem carrega o risco; o número vem depois.

O que fazer hoje: o acordo de uma página

Antes de mudar percentual, escreve o que já existe. Se o combinado vive na conversa do dia em que ela entrou, é aí que nasce o "me cobra taxa administrativa de 5% de tudo que eu faço mais a comissão do salão, isso é certo ou errado?" (profissional, 2022). O que pesou pra ela foi não saber antes. Regra que aparece no primeiro repasse vira desconfiança, e desconfiança vira "a pessoa fica 1 mês e sai" (dona, 2022).

Uma folha, nove linhas, assinada pelas duas. Preenche com o que é hoje:

Combinado entre [salão] e [profissional], a partir de [data]

  1. Modelo: comissão / aluguel de cadeira / misto.
  2. Valor: [%] sobre cada serviço, ou R$ [_] por [semana/mês] pelo espaço, ou os dois.
  3. Material por conta do salão: [lista]. Por conta da profissional: [lista].
  4. A cliente paga: ao salão / à profissional. Pelo Pix de [quem] ou pela maquininha de [quem].
  5. Taxa da maquininha: sai da parte de [quem].
  6. Repasse: todo [dia], com a lista de atendimentos conferida pelas duas.
  7. Agenda: quem marca a cliente é [salão / profissional]. Lembrete e confirmação são de quem marca.
  8. Cliente que falta sem avisar: o prejuízo é de [quem]. Sinal, se tiver, fica com [quem].
  9. Qualquer uma das duas pode encerrar, avisando com 30 dias.

A linha 9 vem da lei, que pede aviso prévio de, no mínimo, trinta dias. Mais sobre ela abaixo.

Se o modelo for comissão, a linha 6 precisa de uma planilha de três colunas, e ela cabe no caderno: atendimento, valor cheio, parte dela. "Seg, corte, Ana · R$ 30 · R$ 15", uma linha por atendimento, escrita no dia, e a soma na sexta. As duas assinam embaixo do total, e o repasse é a terceira coluna. No fechamento do salão, a soma das terceiras colunas entra como custo da semana na folha de quatro linhas de Fez R$ 925 numa semana e não sabe onde foi.

O que a lei diz (e o que ela não diz)

Existe uma lei pra essa relação: a Lei 13.352, de 2016, a lei do Salão-Parceiro. Isto não é parecer jurídico. A lei é pública, e dá pra ler.

Ela descreve o modelo em que o salão recebe da cliente e repassa: o "salão-parceiro" centraliza os pagamentos e retém a "cota-parte" dele, "fixada no contrato de parceria", além dos tributos da profissional-parceira, que pode ser MEI. O contrato tem que ser por escrito, "homologado pelo sindicato da categoria profissional e laboral e, na ausência desses, pelo órgão local competente do Ministério do Trabalho", com duas testemunhas. E a lei lista o que ele precisa ter, numa lista parecida com a folha de cima: o percentual retido pelo salão, as "condições e periodicidade do pagamento", os direitos da profissional "quanto ao uso de bens materiais" e a rescisão "mediante aviso prévio de, no mínimo, trinta dias".

E ela diz quando a parceria deixa de ser parceria: "configurar-se-á vínculo empregatício" quando "não existir contrato de parceria formalizado" ou quando a profissional "desempenhar funções diferentes das descritas no contrato". Um dono de barbearia resumiu em 2026: "Se o salão impõe padrões rígidos [...] mas trata o profissional como funcionário subordinado, isso desfigura a parceria." É relato dele, e aponta pro mesmo artigo.

O que a lei não diz: percentual. Ela não fixa 30, 50 ou 70. E ela trata da comissão; aluguel de cadeira puro é contrato de locação, e a folha de uma página não substitui ele. Se o seu combinado é parceria, aluguel ou emprego disfarçado é conversa com o contador, com a folha na mão.

A nossa opinião, pra cada estágio

Profissional nova, sem clientela e sem material: comissão, com material do salão e percentual na faixa de baixo dos comentários. Ela não tem como bancar o mês fraco, e você tá investindo nela.

Profissional que chega com clientela e material: aluguel de cadeira, ou o misto com material dela e a faixa de cima. Cobrar comissão de quem traz a própria cliente é o que faz ela ir embora em um mês.

Era uma parede de várias, e elas têm ordem

  1. O acordo de uma página, assinado. Hoje, com o que já é.
  2. A planilha de três colunas por profissional, uma linha por atendimento, somada na sexta.
  3. Conferir cada semana o que entrou no caixa contra o que cada uma tem a receber, e o repasse no dia combinado.
  4. A agenda de todo mundo num lugar só, com quem marca em quem, sem uma cliente cair em duas cadeiras.

A primeira você resolve hoje, e ela sozinha derruba a maior parte das brigas de percentual. A segunda e a terceira funcionam no caderno, por cadeira. A quarta é a pergunta de uma dona em 2023, "cada profissional agenda seus clientes? ou apenas uma pessoa, um número de telefone deve ficar responsável por isso?", e ela não tem resposta no papel. É a parte que dá pra não fazer na mão.

Fontes