"Tabela de preços de cabeleireira: como montar por tempo e produto, não por chute"
Progressiva no ombro e na cintura pelo mesmo valor? Monte a tabela de preços de cabeleireira com hora-alvo, produto por comprimento e piso da cidade.
"Ensina como calcular o gasto... para ver quanto cobrar... tenho muito dúvida." Quem escreveu isso, num comentário do YouTube em 2022, era manicure. Mas a pergunta cabe inteira numa bancada de cabelo, onde a conta tem duas variáveis que a unha não tem: o comprimento da cliente e o tempo que a química fica agindo.
A tabela de cabeleireira costuma nascer de três lugares. O preço do salão onde você trabalhava antes. O perfil da colega do bairro. E o susto do dia em que a progressiva no cabelo na cintura gastou o frasco quase inteiro e você cobrou o mesmo da cliente de cabelo no ombro.
Ninguém te ensinou essa conta, e você já faz metade dela
No curso ensinam diagnóstico de fio, colorimetria, tempo de pausa. A conta do preço fica pra você aprender cobrando errado. E você já faz parte dela sem perceber: sabe de cabeça qual serviço "não compensa", sente que a escova longa cansa mais do que paga, percebe quando o tubo de tinta acabou antes do esperado. O que falta é pôr número nessas impressões, uma vez, numa tabela que você confere quando o fornecedor sobe o preço.
A lógica é a mesma que a gente montou pra um serviço só em Quanto cobrar pelo design de sobrancelha: material, a sua hora e o preço da cidade, e o preço é o maior entre o que a conta pede e o que a cidade cobra. Aqui ela vira a tabela do salão inteiro, com corte, escova e química, e com as faixas de comprimento que o cabelo exige.
Os números de exemplo abaixo são de mentira, escolhidos pra conta andar. Não servem como preço de serviço em lugar nenhum. Troca todos pelos seus.
Passo 1: a sua hora-alvo
É quanto cada hora de cadeira precisa render pra fechar o mês que você quer. Três números:
- Quanto você quer que sobre pra você no mês. No exemplo, R$ 3.000.
- O fixo do mês. Aluguel da cadeira ou do espaço, luz (secador e chapinha puxam), água do lavatório, internet, MEI, toalha lavada fora. No exemplo, R$ 900.
- Horas de cadeira ocupada no mês. Só hora com cliente sentada. Hora esperando e hora no WhatsApp ficam fora. No exemplo, 100 horas (umas 25 por semana).
hora-alvo = (o que você quer que sobre + fixo) ÷ horas de cadeira
(R$ 3.000 + R$ 900) ÷ 100 = R$ 39 por hora.
Uma decisão que só o cabelo pede: a pausa da química. A coloração descansa 40 minutos e você fica livre nesse tempo. A gente conta a pausa como hora de cadeira, porque a cadeira e a cliente continuam ocupadas. Se você encaixa uma escova durante a pausa, ótimo, é dinheiro a mais. Ele não entra na base do preço, porque no dia em que o encaixe não aparece, a conta precisa fechar sozinha.
Passo 2: o produto de cada serviço, por comprimento
Aqui mora o erro que mais custa no cabelo. O material da unha é parecido de uma cliente pra outra. O da progressiva pode dobrar entre o ombro e a cintura.
Duas medidas, numa semana normal:
Química, na balança. Põe a tigela vazia na balança de cozinha e zera. Prepara a mistura da cliente e anota as gramas. Faz isso em três clientes de comprimentos diferentes. Na progressiva, usa o copo medidor e anota os mililitros. A conta de cada uma:
custo do produto = (preço do frasco ou tubo ÷ gramas ou ml que ele tem) × gramas ou ml usados
Soma o oxidante, a máscara do pós e o que mais entrar na tigela.
O de toda cliente, uma vez só. Shampoo, condicionador, finalizador, papel-alumínio, luva, touca, toalha descartável. Divide o frasco pelo número de lavagens que ele rende (conta numa semana) e chega num custo por lavagem que vale pra quase todo serviço.
O jeito de medir peso na balança, item por item, é o mesmo que a gente usou com a cera em Cera, lâmina, luva.
Passo 3: o tempo de cada serviço, cronometrado
Não vale o tempo que você acha. Liga o cronômetro do celular quando a cliente senta e para quando ela levanta, com lavagem, pausa e finalização. Três clientes por serviço, por faixa de comprimento. Usa a média.
Quase sempre aparece um serviço que demora bem mais do que você lembrava. É exatamente o que você vinha cobrando como serviço rápido.
Passo 4: o preço de cada linha
preço pela conta = produto + (horas do serviço × hora-alvo)
No exemplo, com hora-alvo de R$ 39:
| serviço | produto | tempo | conta |
|---|---|---|---|
| corte feminino | R$ 3 | 1h | R$ 3 + R$ 39 = R$ 42 |
| escova até o ombro | R$ 4 | 50 min | R$ 4 + R$ 32,50 = R$ 36,50 |
| progressiva até o ombro | R$ 45 | 3h | R$ 45 + R$ 117 = R$ 162 |
| progressiva até o meio das costas | R$ 70 | 3h45 | R$ 70 + R$ 146,25 = R$ 216,25 |
| progressiva abaixo do meio das costas | R$ 100 | 4h30 | R$ 100 + R$ 175,50 = R$ 275,50 |
Repara na última coluna da progressiva. Se você cobra um valor só pra todos os comprimentos, alguém paga a mais (a do ombro) e alguém paga a menos (a da cintura), e quem paga a menos é justamente a cliente que mais te ocupa. As faixas existem pra isso.
Passo 5: o piso da sua cidade, em cinco perfis
Meia hora no Instagram. Procura cinco perfis de cabeleireira da sua cidade que fazem o mesmo serviço, com técnica parecida. Anota o preço de cada uma; se não tá na bio, pergunta como cliente perguntaria. No cabelo, compara faixa com faixa: progressiva no ombro com progressiva no ombro.
Não pega o menor, que costuma ser de quem tá começando ou cobrando errado. Pega o do meio. Esse é o piso da sua cidade, e nenhum blog sabe esse número por você.
A regra: o maior dos dois, nunca abaixo do produto mais a hora
Pra cada linha, você tem o preço pela conta (passo 4) e o piso da cidade (passo 5).
- A conta deu menos que a cidade: cobra o da cidade. Abaixo dele, você diz que o seu trabalho vale menos que o das outras.
- A conta deu mais que a cidade: cobra o da conta e diz o que tem de diferente (o produto que você usa, o tempo que você leva, a finalização inclusa). Cobrar o da cidade e esperar fechar o seu mês não fecha.
- Abaixo da conta, nunca. Nem pra parente, nem "só dessa vez".
A tabela pra copiar e preencher
Copia pro caderno ou pras notas do celular. Uma linha por serviço e por faixa:
| serviço | faixa | produto (R$) | tempo (h) | produto + tempo × hora-alvo | piso da cidade | preço |
|---|---|---|---|---|---|---|
| corte | ||||||
| escova | até o ombro | |||||
| escova | até o meio das costas | |||||
| escova | abaixo | |||||
| progressiva | até o ombro | |||||
| progressiva | até o meio das costas | |||||
| progressiva | abaixo | |||||
| retoque de raiz | ||||||
| coloração global | até o ombro | |||||
| mechas |
No topo da folha, escreve a sua hora-alvo e a data. Quando o fornecedor subir a progressiva ou a tinta, você refaz só a coluna do produto daquela linha, e o resto continua valendo.
O que a tabela costuma mostrar
Quase sempre, duas coisas.
A primeira: o serviço que você mais faz nem sempre é o que melhor paga a sua hora. Divide o preço que você cobra hoje pelas horas que ele leva. A escova longa e a progressiva sem faixa costumam aparecer lá embaixo.
A segunda: a diferença entre o que você cobra e o que a conta pede. Se ficou abaixo, avisa o reajuste com data, numa mensagem só ("a partir de 1º de dezembro, a progressiva passa a ter preço por comprimento") e segura. Quando a cliente estranhar, as respostas prontas estão em "Tá caro" e "faz um descontinho". E como produto de química é caro e comprado antes, o sinal desses serviços a gente calculou em Sinal pra progressiva e coloração.
Era uma parede de várias, e elas têm ordem
- A tabela, com a sua hora-alvo, o produto pesado e o tempo cronometrado. Uma semana medindo e uma tarde fazendo a conta.
- O preço igual em todo lugar: destaque, bio, resposta salva e a hora de cobrar. Como mostrar faixa de comprimento e "a partir de" honesto, tá em "Preço no perfil, sim".
- Segurar o preço quando a cliente antiga pedir o valor velho.
- Cada serviço com preço e duração num lugar que a agenda usa, pra progressiva de 4h30 nunca dividir a tarde com uma escova marcada no meio.
A primeira depende de você e de uma balança. A segunda e a quarta são a mesma tabela copiada em quatro, cinco lugares diferentes, e cada reajuste vira uma caça ao preço velho. É essa parte que dá pra não fazer na mão.