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"Manicure com 40% de comissão comprando o próprio material: a conta de quem paga pra trabalhar"

Comissão de manicure com material dela, na ponta do lápis. Quando 70% rende menos que 50%, o que sobra pro salão e a planilha de 4 colunas pra copiar.

"Bom dia, uma dúvida: se o produto é do profissional de manicure ela que paga para o salão os 40%?" Uma manicure perguntou isso num comentário do YouTube em 2024, embaixo de um vídeo sobre comissão. Ninguém respondeu com conta.

Dois anos depois, em outro vídeo, uma profissional olhou pra conta que o vídeo fazia e escreveu: "nessa conta o profissional ficaria com 175 em uma mecha? [...] eu entendo os custos de um salão e tudo mais porém o profissional tá pagando pra trabalhar" (2026). E no meio das duas, a regra que muita gente acha boa: "Trabalho em um salão a comissão das manicure é 70%, todos os materiais a manicure que comprar" (2025).

Esse post é a conta que ninguém fez nos comentários, com número, pros dois lados.

Por que ninguém sabe se o percentual é bom

Você não sabe se 70% é bom porque o percentual diz quanto do preço é seu, e não diz quanto já foi embora antes, no esmalte, na lixa, na acetona, na luva, no gel.

A dona sabe o aluguel. A manicure sabe o preço do esmalte. Nenhuma das duas costuma saber quanto de material vai em um pé e mão. A faixa relatada nos comentários vai de 30% a 80%, e muda conforme quem leva o material.

Então o primeiro número da conta não é o percentual. É o material por atendimento.

O número que falta: material por atendimento

Uma manicure que anota tudo num caderno desde 2017 escreveu em 2022 o preço dela: "Meu pé e mão é 35,00, meu custo arredondado sempre pra mais 10,00 e lucro 25,00." A gente já usou esse número em Quanto custa uma falta por semana, e ele serve aqui porque é o único que a gente achou nos comentários com preço e custo do mesmo serviço.

R$ 10 de material num serviço de R$ 35 são quase 29% do preço. Guarda esse número.

Pra achar o seu: divide o que cada item custou pelo número de clientes que ele rende e soma. Pote de R$ 30 que rende 30 clientes é R$ 1 por atendimento. Descartável (lixa, palito, luva) entra inteiro. Arredonda pra cima, como a manicure de 2017.

A conta aberta: o mesmo pé e mão em quatro regras

Pé e mão a R$ 35, material R$ 10, com as regras que aparecem nos comentários:

regra fica com ela ela paga material sobra pra ela fica com o salão
40% dela, material dela R$ 14,00 R$ 10 R$ 4,00 R$ 21,00
salão fica com 40%, material dela R$ 21,00 R$ 10 R$ 11,00 R$ 14,00
70% dela, material dela R$ 24,50 R$ 10 R$ 14,50 R$ 10,50
50% dela, material do salão R$ 17,50 R$ 0 R$ 17,50 R$ 7,50 (R$ 17,50 menos R$ 10)

A primeira linha é a leitura mais dura do título: se os 40% são dela e o material também, sobram R$ 4 por pé e mão. Num serviço de uma hora, R$ 4 a hora. É o "pagando pra trabalhar" de 2026, sem exagero nenhum.

A pergunta de 2024 era a segunda leitura (o salão fica com 40%), e mesmo ela deixa R$ 11.

Agora repara na terceira e na quarta linha. 70% com material dela rende R$ 14,50. 50% com material do salão rende R$ 17,50. O percentual maior paga menos. Os 70% parecem generosos porque o material sumiu da conversa.

A regra de bolso pra saber de que lado você tá: 70% com material dela empata com 50% com material do salão quando o material custa 20% do preço. Menos que isso, os 70% ganham. Mais que isso, perdem. No pé e mão da manicure de 2017, o material é 29%: perde.

E no alongamento, que tem preço maior?

Alongamento a R$ 120 é valor relatado num comentário do YouTube ("120 no alongamento e elas já achan muito caro"). O custo do material ninguém escreveu junto, então vai um número inventado só pra conta andar: R$ 25 por aplicação. Troca pelo seu.

  • 70% com material dela: R$ 84 menos R$ 25 = R$ 59.
  • 50% com material do salão: R$ 60.

Quase empate, porque R$ 25 é 21% de R$ 120, perto dos 20%. O alongamento aguenta melhor o material por conta dela; o pé e mão, não. Pra dona, isso quer dizer que um percentual só pra todo serviço deixa um justo e outro injusto na mesma cadeira.

O lado do salão, depois do fixo

Na regra dos 70%, o salão fica com R$ 10,50 sem gastar material; na de 50%, com R$ 7,50. Só que a cadeira tem custo fixo antes de qualquer cliente sentar: aluguel, luz, água, maquininha.

Vamos pôr R$ 600 por mês de fixo nessa cadeira (número inventado, pra conta andar) e 6 pé e mão por dia, 22 dias: 132 atendimentos.

regra ela no mês salão no mês, antes do fixo salão depois dos R$ 600
70% dela, material dela R$ 1.914 R$ 1.386 R$ 786
50% dela, material do salão R$ 2.310 R$ 990 (R$ 2.310 menos R$ 1.320 de material) R$ 390
salão fica com 40%, material dela R$ 1.452 R$ 1.848 R$ 1.248

Por isso as duas brigam. "Se o profissional paga 50% ele torna-se sócio porém quem paga todas as despesas é o salão, ou seja prejuízo", escreveu uma dona em 2023. Na regra dos 50% com material do salão, ela fica com R$ 390 no mês por aquela cadeira, e um mês com três faltas por semana come isso. A manicure, do outro lado, vê R$ 4 a hora na pior regra e vai embora.

A regra certa é a que as duas assinam sabendo o número da última coluna de cada lado.

O que fazer hoje: a planilha de 4 colunas, preenchida juntas

A planilha de três colunas que a gente desenhou em Comissão, aluguel de cadeira ou misto (atendimento, valor cheio, parte dela) resolve o repasse. Quando o material é da manicure, ela esconde exatamente o que este post mostrou. Então ganha uma coluna, e muda a ordem:

Semana de ___ a ___ · [nome da profissional]

bruto material % líquido
R$ 35 (pé e mão, Ana, seg) R$ 10 70% = R$ 24,50 R$ 14,50
R$ 120 (alongamento, Bia, ter) R$ 25 70% = R$ 84 R$ 59
... ... ... ...
total total total total

Bruto é o que a cliente pagou. Material é o custo daquele serviço, da conta por atendimento que ela fez uma vez e escreveu na primeira página. % é a parte dela pelo combinado. Líquido é o % menos o material, se o material é dela, ou o % inteiro, se é do salão.

Como fazer, sem briga:

  1. Senta com ela uma vez, antes de fechar o mês, com a lista de materiais de cada serviço e as notas de compra. Calculam juntas o material por atendimento de cada serviço. Escreve na primeira página e as duas rubricam.
  2. Uma semana inteira de planilha com a regra de hoje, uma linha por atendimento, escrita no dia.
  3. Na sexta, olham o total da coluna líquido e dividem pelas horas que ela ficou na cadeira. Isso é o quanto ela ganhou por hora. Faz a mesma conta do lado do salão: soma do que ficou com o salão, menos um quarto do fixo do mês.
  4. Se um dos dois números não fecha, muda uma coisa só: o percentual, quem compra o material ou o preço. Uma de cada vez.

Material por conta dela pode ser bom: muita manicure prefere, porque escolhe a marca. O que pesa é o percentual combinado sem essa coluna na mesa. Se você acabou de trazer alguém pra sua cadeira, as outras perguntas pra combinar antes estão em Contratou a primeira profissional.

O que a lei diz sobre material e percentual

A Lei 13.352, de 2016, a lei do Salão-Parceiro, não fixa percentual nenhum. Ela manda o contrato de parceria ter, por escrito, o "percentual das retenções pelo salão-parceiro dos valores recebidos por cada serviço prestado" e os "direitos do profissional-parceiro quanto ao uso de bens materiais necessários ao desempenho das atividades profissionais". E diz que a parte que o salão retém é, entre outras coisas, a título de "aluguel de bens móveis e de utensílios".

Ou seja: material e percentual andam juntos no mesmo papel. O contrato, diz a lei, é homologado no sindicato da categoria (ou, na falta dele, no órgão local do Ministério do Trabalho), com duas testemunhas. Isto é o texto da lei, não parecer jurídico. Se o seu combinado precisa virar esse contrato, a planilha de quatro colunas é o que você leva pro contador.

Era uma parede de várias, e elas têm ordem

  1. O material por atendimento de cada serviço, calculado juntas e escrito. Hoje.
  2. A planilha de 4 colunas por profissional, uma linha por atendimento, somada na sexta.
  3. O repasse no dia combinado, com as duas conferindo a coluna líquido contra o que entrou no caixa.
  4. Refazer a conta quando o preço sobe, porque o material não sobe junto e o percentual muda de peso.

A primeira custa uma tarde e responde a pergunta de 2024. A segunda e a terceira funcionam no caderno, por cadeira. Com três manicures, são três planilhas e três conferências toda sexta, e é essa soma que começa a pedir pra não ser feita na mão.

Fontes